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– Aí, tia, pirou? Não tá velhinha para usar esse vestido não?

Acredite, se quiser: é assim que um aborrecente aborda Xuxa – ops, Cinderela –, ao se deparar com a balzaqueana princesa, de franjinha e roupa bufante azul, numa das cenas de O mistério da Feiurinha, a superprodução infantil nacional destas férias de verão.

Antes de torcer o nariz para Xuxa, eternamente associada a performances infantiloides, vale a pena prestar atenção aos acertos do longa-metragem, baseado no livro O fantástico mistério da Feiurinha, do consagrado autor infanto-juvenil Pedro Bandeira. Conduzido com segurança pela experiente cineasta Tizuka Yamasaki, o bem amarrado roteiro mescla contos de fadas às neuras do nosso cotidiano.

O elenco está cheio de estrelas televisivas: Angélica (Rapunzel) e seu maridão, Luciano Huck (no papel de um príncipe mauricinho de bigode); Luciano Szafir, eterno “namorido” da estrela, outro boa-vida da corte; André Marques, em ponta como escrachado motorista de caminhão carioca. Dá para rir um bocado das celebridades da Ilha de Caras: Angélica, com ares de dona Xepa, chama o maridão de gordo; o míope Szafir vira sapo quando tenta dar uma de herói. E tem Hebe… Bem, a loura-mor, com seus inseparáveis anelões coloridos, rendeu uma ótima sogra carrasca.

Efeitos No filme de Xuxa e de Tizuka, os efeitos especiais ficam em seu devido lugar: a serviço da história e da fantasia. Livros, internet, escritores e seres encantados estão no centro da trama: personagens de contos de fadas entram em pânico ao se descobrirem prestes a desaparecer, pois ninguém mais lê suas histórias. Invadem o mundo real – ou seja, o debochado Rio de Janeiro – para virar o jogo.

Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e companhia limitada são barraqueiras, vivem às turras. Adoram discutir a relação com seus príncipes, reclamam da paixão dos coitados pelo futebol, escracham a barriguinha deles. Reclamonas, desabafam: enquanto os maridões ficam no bem-bom, cabe a elas comer maçã envenenada, dormir séculos a fio, experimentar centenas de sapatinhos de cristal e carregar imensas tranças. Ferinamente femininas, discriminam a moreníssima Chapeuzinho: “Inteligente, mas ficou solteirona”.

“Princesas unidas jamais serão vencidas”, gritam as moças, em busca de um escritor que as ajude a resgatar a princesa Feiurinha, deletada do mundo encantado porque as crianças ignoram sua história. Feiurinha Sasha, filha da dona do filme, é vítima do bulling praticado pelas bruxas. Na hora das maldades, a criançada da plateia nem pisca – mesmo os bem pequenininhos. O coletivo do mal dá um baile na liga das bonitonas.

O papel de princesinha teen certamente se adequaria melhor a atrizes adolescentes experientes. Não ficou muito legal a cena de Sasha bailando – parece até aquelas apresentações de fim de ano de escolas de dança. À imprensa, a mãe coruja já declarou: não pretende repetir a dose. Sendo assim, seria aconselhável Xuxa matricular sua garota num desses Tablados da vida.

Com ou sem Sacha, o filme garante diversão para pais e pimpolhos. A história de Pedro Bandeira milita em favor da fantasia, defende a leitura, mas sem má vontade com o computador. Detalhe: a dona da Xuxa Produções decidiu adaptar O fantástico mistério de Feiurinha para o cinema depois que a filha, ainda pequena, a fez ler o livro. As poderosas Globo Filmes e Conspiração se associaram ao projeto.

Aos 46 anos, Maria da Graça Meneghel parece se divertir ao assumir a maturidade. Pagou mico no próprio script ao ser tachada de Cinderela velhinha, trocou roteiros tatibitatis por “uma história sólida” (como declarou ao crítico de cinema Luiz Carlos Merten), vai aprendendo a abrir mão do esplendor da juventude para não perder a piada. Ainda por cima, convocou a impagável Hebe Camargo para ser a jararaca de sua corte. Assistir a este filme, definitivamente, não é castigo para os adultos. Ponto para a loura.

Fonte: Divirta-se